Inaugurando um novo tipo de publicação no blog, estamos compartilhando um texto que chegou às nossas mãos. Continuando com a discussão sobre testemunhar, achamos muito potente ter um espaço no blog para que esses testemunhos do cotidiano possam ter lugar.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
FUGA DE SENTIDO
Típica manhã de terça-feira no abrigo residencial “sabiá”: os burocratas
resmungavam, a equipe “técnica” saboreava seu café barato enquanto atuava uma
sinfonia de queixas, os sabiás – do lado de fora do espaço reservado aos adultos –
desferiam palavrões com uma criatividade neologística digna de Guimarães Rosa. Em
resumo, o teatro da assistência seguia a pleno vapor!
Integrado, o estagiário assistia (a)a peça. Sentado em sua cadeira, realizando
alguma tarefa qualquer, é interrompido subitamente por uma fala cotidiana – banal por
sua repetição, mas que por algum motivo provocou um forte estranhamento naquele
momento: “Joãozinho fugiu de novo”, proferiu o autodenominado professor, membro
da já adjetivada equipe.
O estagiário então assume a palavra e oferta uma interrogativa como
réplica: “isto é uma prisão que eles precisam fugir?”. Seu interlocutor é surpreendido,
e um tórrido diálogo toma conta do espaço, estragando a cena, surpreendendo os
atores. O estagiário justifica sua pergunta: “como podemos esperar dessas crianças uma
apropriação outra desse espaço, diferente da de uma prisão, de uma gaiola, enquanto
operamos em uma lógica de fugas e busca/apreensão?”. O contra-argumento já era
esperado; o professor justifica sua fala em seus trinta anos de experiência e encerra a
discussão.
Três semanas depois, durante uma reunião de equipe, o mesmo estagiário
surpreende-se novamente com o experiente professor: quando Joãozinho surge como
uma das pautas, nosso sapiente profissional defende uma postura completamente outra
daquela sustentada no passado; para ele, Joãozinho não mais “fugiu”, e sim “evadiu” e
deveríamos tentar preservar aquilo que deixou para trás enquanto marca no seu antigo
espaço – no caso alguns poucos pertences-, apostando que ele voltará.
SOBRE A INTERVENÇÃO CLÍNICA
Parafraseando um autor que tenho em alta conta: “O mestre (zen) interrompe o
silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé”. Na mesma medida em que não
podemos prever o efeito de uma intervenção, nem ao menos atribuir uma causalidade a
este, podemos situar ou até mesmo caracterizar esta como todo ato que visa inserir uma
dimensão de dúvida em um plano de certezas. Para tal ato, um pontapé pode exercer o
mesmo valor que uma frase sarcástica, uma pergunta bem formulada, ou até mesmo o
ridículo de uma piada.
Inserir uma pergunta é devolver um conjunto de possibilidades, uma abertura
a sentidos outros para além daquele que, em um primeiro momento, se encontra
fechado de maneira unívoca. Intervir de maneira clínica, sobre essa perspectiva,
é apostar na potência de introduzir e suspender uma pergunta em detrimento de
oferecer uma resposta. Para os mais pedantes, seria o equivalente ao tão batido clichê
psicanalítico: “devolver uma dimensão de significante lá onde somente o signo se faz
presente”.
Uma intervenção nesse plano, sob esse olhar, se faz fundamental no trabalho
com crianças: nesse período de busca de significantes que o representem, o signo
oferecido por aqueles que se colocam em uma posição desejante frente a esse atua
como uma profecia que se auto-cumpre; é aquela velha história: uma mãe chega
ao consultório reclamando que o filho é vagabundo, imprestável, inútil e que era
assim desde bebê. Afinal, como se perguntar: qual o desejo enfim que engendrou
subjetivamente essa criança e se expressa na queixa dessa mãe?
O mesmo talvez aconteça no breve recorte que trago para o debate: até que
ponto, ao reclamar que Joãozinho “fugiu” do abrigo, esse verbo fugir não determina
uma posição, uma maneira de apropriar-se do espaço e um desejo de “fuga” por parte
dos cuidadores? Se algo existiu de clínico nessa intervenção, ela atuou no plano da
pergunta, devolvendo uma polissemia ao verbo.
Cabe ressaltar mais um detalhe: uma intervenção clínica não pode ser
premeditada. Ela é um acontecimento, situado em determinado tempo, em uma
determinada conjuntura. Mas isso talvez seja assunto para outro escrito.
Carlos Adriano Sippert
Mostrando postagens com marcador Testemunhos do Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Testemunhos do Cotidiano. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Testemunhos do Cotidiano
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Tarde no sanatório
Dia desses fui ao CDQUIM (Centro de Dependência Química), localizado no Hospital Parque Belém. Chegando lá se vê um prédio muito bem estruturado mas com características um tanto quanto antigas. Indaguei-me sobre como um hospital daquele porte é construído em um local tão distante do centro da cidade. “Curiosiei”. Fui perguntando para algumas pessoas e descobri que esse hospital funcionava inicialmente como um sanatório, ou seja, um local para onde os doentes de tuberculose eram enviados para fazer tratamento intensivo. É interessante a sua localização: Zona Sul da Capital, bairro Belém Velho, antigamente o que poderia se chamar de “zona rural”. Justificava-se por ser lugar onde os atacados pela “tísica” poderiam se privilegiar dos ares e do contato com a natureza. Mas eu me pergunto se não era justamente em regiões isoladas que os leprosários eram construídos? E que depois passaram a comportar outro público, a saber, os doentes mentais. Fiquei pensando na expressão “doido varrido”, se ela não carrega uma ideia de alguém que é varrido para um outro lugar, alhures...
Pois bem, esse sanatório transformou-se em um hospital e que tem um centro psiquiátrico voltado para dependentes químicos. CDQUIM.
Vou andando por dentro do hospital, até chegar do outro lado, pátio dos fundos, espaço bastante amplo e arborizado. Muito me lembra um manicômio, mas vá lá. Caminho por uma alameda que costeia o prédio e então faço uma curva que desemboca em uma escada acimentada. No final da escada, uma porta. Entro em uma sala na qual há uma moça nada simpática (ao menos naquele momento). Pergunto sobre a internação psiquiátrica e ela me mostra onde fica a entrada. Vai parecer clichê, mas sim, há um corredor. No final deste deparo-me com um portão de ferro que se assemelha com o de uma prisão. Tem um cadeado e uma grossa corrente. No portão há um enfermeiro (acredito que o fosse por estar vestindo um jaleco branco) com cara de “poucos amigos”. Dou um sorrisinho vexado, seguido de um “boa-tarde!”, mais na tentativa de dizer a ele que estava tudo bem para mim. Em resposta recebo um olhar ainda duro, que para mim queria dizer: “estás entrando em uma ala psiquiátrica! Não há lugar para humor, sobretudo porque há loucos”. Trancou o cadeado às minhas costas e fui adentrando o recinto, pensando naquele sorriso que não veio.
Então, mais uma escadaria. Dois lances de escada para um subterrâneo ainda mais recôndito do que o que eu sequer podia imaginar. Ao descer encontro pacientes bastante simpáticos que vem cumprimentar-me. Vejo que toda essa parte do hospital é gradeada, algo característico dos manicômios e das alas psiquiátricas. (De) que(m) se protege(m)? Por que tantas grades? Existe um temor de fuga? Um medo de agressão por parte do paciente “psiquiátrico”? Ou as grades continuam ali porque ninguém questionou a sua existência? Dei-me conta, já faz algum tempo, de que toda internação psiquiátrica tem esse elemento presente. Mas acho que há uma resposta para as minhas perguntas: há uma aura de periculosidade que circunda o paciente da psiquiatria que está ligado a ideia de loucura. Se alguém é louco logo é perigoso, uma vez que não responde por seus atos. O olhar do enfermeiro já me dizia: cuidado, estás entrando numa ala psiquiátrica.
Saio de lá para uma tarde ensolarada, um dia leve, mas com um peso no coração: até quando manteremos pessoas em regime de exclusão? Até quando o sofrimento psíquico será tratado como anormalidade, como marginalidade? Quanto tempo veremos pessoas serem objeto de uma brutalidade dessas, quando nós não damos conta das suas singularidades?
Por Letícia Campos
Por Letícia Campos
Assinar:
Postagens (Atom)